Conectados, mas Não Protegidos
Sobre a geração que ajudou a construir o Brasil, mas que agora corre o risco de se perder em um mundo digital que muda mais rápido do que ela consegue acompanhar.
Em uma contribuição anterior sobre as intenções de voto dos brasileiros, mencionei as quatro gerações que, segundo análises recentes, moldam o cenário político atual: Bossa Nova, Ordem e Progresso, Redemocratização e Geração.com. Esta última, que representa cerca de doze por cento da população, merece atenção especial. Trata-se de jovens nascidos entre 2000 e 2009, recém-ingressos na vida eleitoral e, ao mesmo tempo, a primeira geração que cresceu inteiramente em um ambiente digital. Ainda assim, chama a atenção que esse grupo, embora pequeno do ponto de vista demográfico, seja muito maior quando se considera o número de pessoas que realmente podem ser classificadas como nativas digitais. Existem várias denominações para essa categoria: early adopters, digitalmente proficientes e, às vezes, até “elite digital” — um grupo que não apenas tem acesso às tecnologias mais recentes, mas também possui o repertório intelectual necessário para compreender e utilizar sistemas digitais complexos.
Ao observarmos os dados mais recentes de 2025 e início de 2026, impressiona o nível de penetração da internet no Brasil. Cerca de 88% da população — entre 163 e 185 milhões de pessoas — utiliza a rede. O uso de telefones celulares é praticamente universal, alcançando 97%. Mas esses números escondem uma nuance importante: ter acesso à tecnologia não significa compreendê-la, muito menos utilizá-la de forma segura e eficiente. A elite digital concentra-se sobretudo na classe A, onde praticamente todos têm acesso a múltiplos dispositivos — computadores e smartphones — e, portanto, conseguem realizar tarefas digitais complexas, como operações bancárias, declarações de imposto de renda e uso de softwares profissionais. Nas classes D e E, a realidade é outra. Ali, 87% das pessoas acessam a internet exclusivamente pelo celular, o que limita significativamente as possibilidades de uso mais avançado.
Regionalmente, o Sudeste e o Centro-Oeste continuam liderando em conectividade, mas o maior crescimento recente ocorre no Norte e no Nordeste. A desigualdade digital diminui, mas ainda é evidente. Apenas uma parte da população dispõe do que pesquisadores chamam de “conectividade significativa”: uma combinação de velocidade, estabilidade e equipamentos adequados que permite usufruir plenamente das possibilidades digitais. Para milhões de brasileiros, essa barreira permanece alta.
Essa desigualdade tem consequências profundas, especialmente para a geração Bossa Nova. Segundo o IBGE, o Brasil tem mais de quinze milhões de pessoas com mais de 70 anos. Uma parcela significativa delas não possui conectividade significativa, e os efeitos disso são dramáticos. Entre os idosos que não usam a internet, 66% afirmam que simplesmente não sabem como fazê-lo. Não se trata de falta de vontade, mas de incapacidade — uma geração que não viveu a revolução digital e que agora se vê diante de uma sociedade que avança mais rápido do que ela consegue acompanhar.
A isso se soma o problema do analfabetismo. Em 2024, cerca de 14,9% dos brasileiros com mais de sessenta anos eram analfabetos — mais de cinco milhões de pessoas. No Nordeste, esses índices são ainda mais altos. Para aqueles que sabem ler, mas não compreendem os “códigos digitais”, as barreiras são igualmente grandes. O uso de computadores entre idosos caiu de 63% para apenas 33% nos últimos anos, substituído pelo smartphone. Mas um smartphone não é um instrumento adequado para tarefas complexas. A tela é pequena, a interface é instável e a segurança é difícil de controlar. O resultado é que muitos idosos possuem o aparelho, mas o utilizam apenas para funções básicas: telefonar, receber mensagens, ver fotos e — sobretudo — passar horas rolando pelas redes sociais.
Há ainda um aspecto frequentemente ignorado: o hábito persistente de muitos idosos de sacar todo o seu rendimento mensal em dinheiro, seja em uma Casa Lotérica, seja em uma agência bancária. Não é raro vê-los em longas filas, muitas vezes sob sol forte, para retirar o dinheiro que depois guardam em casa. Alguns têm medo de usar caixas eletrônicos, receosos de cometer erros, de serem enganados ou simplesmente por não entenderem o funcionamento da máquina. O tempo perdido é enorme, mas para eles é a única forma de sentir controle sobre o próprio dinheiro. Ao mesmo tempo, os bancos fecham agências em ritmo acelerado, especialmente no interior. Cidades que antes tinham uma agência agora dependem de municípios vizinhos, muitas vezes distantes, onde a conexão de internet é instável. As pessoas são forçadas a se digitalizar, mas nem todos conseguem. Para idosos com mobilidade reduzida, uma simples operação bancária transforma-se em meia jornada de viagem. A sociedade muda mais rápido do que eles conseguem acompanhar, e as consequências são, por vezes, cruéis.
Vejo isso com frequência entre amigos e conhecidos. Pessoas bem formadas, com carreiras respeitáveis, mas totalmente dependentes de terceiros quando o assunto é segurança digital. Isso já seria preocupante por si só, mas torna-se perigoso quando percebemos que essa vulnerabilidade é terreno fértil para o crime. Mais de 80% dos idosos em áreas urbanas como São Paulo relatam ter sido alvo de tentativas de golpe digital. As fraudes mais comuns envolvem contratação indevida de empréstimos e roubo de identidade por meio de aplicativos bancários. Cerca de 68% dos idosos brasileiros acreditam que é praticamente impossível se proteger totalmente contra golpes online. Esse sentimento de impotência talvez seja ainda mais alarmante do que os golpes em si.
Um exemplo do cotidiano ilustra isso de forma clara. Um idoso de mais de 70 anos contrata um prestador de serviços que cobra R$ 150, um valor relativamente baixo. A combinação é que o profissional passará em sua casa para receber o pagamento, a pedido do cliente mais velho. No dia marcado, o prestador se atrasa e só aparece horas depois. O cliente, um homem pontual, passa o dia inteiro em casa esperando para entregar o dinheiro pessoalmente. Ele até possui um smartphone, mas não sabe fazer um Pix. Além disso, não confia no sistema. Quando o homem finalmente chega, o cliente lhe entrega uma nota de R$ 200. “Desculpe, não tenho troco”, é a resposta. E assim se vão dois dias inteiros por algo que poderia ter sido resolvido em segundos.
Outro conhecido me procurou após receber uma mensagem no WhatsApp, supostamente enviada pela Receita Federal. O texto dizia que seu CPF seria suspenso por falta de pagamento de uma taxa. O homem tremia de medo. Ter o CPF invalidado é algo gravíssimo no Brasil. Percebi imediatamente que havia algo errado, fiz algumas perguntas e logo ficou claro que se tratava de um golpe. Consegui tranquilizá-lo, mas poderia ter terminado de outra forma. E mensagens assim são inúmeras: páginas falsas prometendo fortunas, notícias inventadas sobre bloqueio de aposentadorias, alertas sobre medidas inexistentes do governo. Como muitos idosos têm o hábito de encaminhar tudo o que recebem para todos os seus contatos, essa desinformação se espalha como fogo em palha seca. O medo vence a cautela, a emoção vence a razão, o impulso vence a reflexão.
As eleições se aproximam. Em outubro, o país escolherá um novo presidente e novos governadores estaduais. Oficialmente, as campanhas começam em agosto, mas na prática a batalha digital já está em curso há muito tempo. As redes sociais estão inundadas de comentários, vídeos, charges e “notícias” que muitas vezes são completamente falsas. A inteligência artificial faz o resto. Não é exagero dizer que muitos se deixam enganar — especialmente jovens e idosos. A velocidade com que essas mensagens se espalham é impressionante, e sempre me surpreende o grau de credibilidade que recebem. Não é de admirar que a polarização política no Brasil seja tão resistente.
Tudo isso compõe um problema gigantesco na sociedade brasileira, um problema que só pode ser enfrentado com melhor educação e formação digital. No caso da geração Bossa Nova, o tempo acabará por suavizar a diferença. Mas ninguém sabe o que o futuro reserva para a geração .com. Eles são digitalmente hábeis, mas vivem em um mundo onde a fronteira entre o real e o falso se torna cada vez mais tênue. A questão não é se dominarão a tecnologia, mas se conseguirão enxergá-la com clareza.
Por isso, acredito que existe uma tarefa evidente para o poder público, tanto para a geração Bossa Nova quanto para muitos das gerações seguintes. Não como luxo, mas como dever social. A educação digital deixou de ser acessória e tornou-se uma necessidade básica em uma sociedade que muda em ritmo acelerado. Assim como existem postos de saúde e UPAs para atendimento médico, deveria haver espaços físicos onde as pessoas pudessem buscar orientação digital. Muitos receberiam essa ajuda de braços abertos, sem vergonha, se lhes fosse explicado que desconhecimento não é falha pessoal, mas consequência de oportunidades desiguais. A digitalização é irreversível, mas excluir pessoas porque não conseguem acompanhar o ritmo é injusto. Campanhas, folhetos, programas de televisão, iniciativas locais — tudo o que possa reduzir essa distância — já deveria existir. Os bancos não resolverão esse problema; eles fecham agências e abandonam justamente os clientes que mais precisam de apoio. Quem pode resolver, deve não apenas prometer, mas agir. Para mim, isso não é preferência política, mas um simples apelo à responsabilidade: uma sociedade que protege seus idosos, protege a si mesma.
As imagens que acompanham este texto foram geradas por inteligência artificial. Não representam pessoas reais e servem apenas para ilustrar visualmente o conteúdo desta reflexão. É importante lembrar que muitas imagens que circulam nas redes sociais também não são reais — com a diferença de que, nesses casos, raramente há um aviso. Mantenha sempre um olhar atento.



