Mesma lógica, outra escala
De uma empregada doméstica explorada ao caso Banco Master: como o poder no Brasil ainda gera abusos, da rua ao Senado.
Não conheci o Brasil através das praias ou do samba, mas através de uma mulher chorando no meu círculo de conhecidos. Ela tinha 38 anos, era bonita, orgulhosa, religiosa e pobre. Uma mulher que trabalhava como empregada doméstica por um salário mínimo que mal dava para sobreviver. Eu não tinha ideia de que ela era explorada. Só percebi mais tarde, e essa compreensão trouxe uma verdade desconfortável: eu mesmo tinha ido parar em um mundo que só muito tempo depois eu reconheceria como a burguesia brasileira.
Um dia ela me contou a sua história. Tinha sido abordada na rua por uma mulher que lhe prometeu um futuro como modelo. Fotos, um book, contatos com agências, altos salários. Esperança, enfim — o bem mais precioso de quem tem pouco. Ela assinou um contrato que mal conseguia ler. Só mais tarde descobriu que, durante um ano, teria que entregar quase metade do seu salário por fotos de má qualidade, sem qualquer garantia de trabalho. Puro golpe.
Quando a levei ao “estúdio” e fiz com que o contrato fosse rasgado, pensei que o assunto estivesse encerrado. Mas não estava. As reações ao meu redor foram reveladoras. Não diretamente contra mim — eu era um estrangeiro, “alguém que ainda não entende como as coisas funcionam aqui” — mas contra ela. Avisos, ameaças veladas, comentários como “quem voa alto pode cair feio”. Foi o meu primeiro confronto real com uma realidade social que eu não tinha visto até então: um país onde a desigualdade não é apenas econômica, mas cultural, quase feudal. Onde os poderosos olham de cima para quem tem pouco, e onde o abuso é frequentemente visto como algo normal, algo que “é assim mesmo”.
Fiquei indignado, mas também impotente. Ao mesmo tempo, comecei a entender quão profundas eram essas estruturas. Quando Lula surgiu mais tarde, eu não era um fã, mas vi que ele rompeu algo: a ideia de que o poder era reservado apenas às mesmas famílias, às mesmas elites. Mas essa esperança também foi obscurecida por escândalos de corrupção. Não porque um partido fosse ruim, mas porque a corrupção no Brasil não tem ideologia. Ela segue o poder, onde quer que ele esteja.
Talvez seja por isso que a história recente sobre o Banco Master, Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira me toca tanto. Não porque seja nova, mas porque me lembra aquele pequeno estúdio de vinte anos atrás. A escala é outra, os valores são astronômicos, os prédios são luxuosos, mas a lógica é a mesma: quem tem poder, abusa dele. Quem tem pouco, paga a conta.
Para quem não conhece Ciro Nogueira: ele é um dos políticos mais poderosos do Brasil. Lidera o partido Progressistas (PP), um partido fundamental dentro do Centrão. Esse Centrão não é um movimento ideológico, mas um bloco de poder que sempre se alia a quem oferece as melhores vantagens no momento. Sob Lula, estiveram no governo. Sob Dilma também. Sob Bolsonaro novamente — e Ciro Nogueira chegou a ser seu ministro da Casa Civil. Hoje, negociam novamente com o atual governo. A ideologia não conta. Apenas poder, cargos e, acima de tudo, dinheiro.
E é exatamente aí que entra o Banco Master. O caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro está apenas começando, mas o que já está vindo à tona é estarrecedor. Segundo a investigação, Vorcaro pagava mensalmente quantias enormes a Ciro Nogueira, através de cartões de crédito, empresas e hotéis de luxo. Em troca, o senador teria apresentado projetos de lei que foram literalmente escritos pelo banco — propostas que beneficiariam diretamente a instituição. É uma interação clássica entre poder financeiro e poder político, mas em uma escala que é excessiva até para os padrões brasileiros.
E este é apenas o topo do iceberg. Quanto mais se mexe na lama, mais forte fica o cheiro. A delação premiada de Vorcaro ainda está em negociação. Ninguém sabe quais nomes ainda vão cair, quais estruturas ainda vão desabar, quais acordos ainda serão revelados. Mas uma coisa é certa: este não é um incidente isolado. É um sistema.
E, novamente, vejo a mesma dinâmica de antes: quem critica é avisado. Quem faz perguntas é descartado como alguém que “não entende o sistema”. Quem é dependente é mantido acuado. Só que agora as vítimas são menos visíveis. Não é uma mulher chorando em uma mesa de cozinha, mas milhões de brasileiros que nunca saberão por que suas vidas não avançam, por que suas oportunidades continuam limitadas, por que a desigualdade é tão persistente.
Vinte anos atrás, ajudei uma mulher a sair de uma armadilha. Hoje, vejo um país que ainda tenta escapar de armadilhas muito maiores, construídas por pessoas que sabem o que fazem, mas ainda assim abusam. E, no entanto, resta esperança. Não a esperança ingênua de promessas, mas a esperança de que a justiça — por mais lenta que seja — acabe prevalecendo. Que o Brasil um dia se torne um país onde ninguém mais precise temer quem “sobe alto”, porque ninguém mais será mantido pequeno.
A esperança nos mantém vivos. Mas a justiça faz os países avançarem.


