Voltando no tempo, isto é um flashback! Um dia foi o jingle de uma rádio pirata chamada Radio Caroline, se bem me lembro. Hoje é principalmente a minha própria cabeça que rebobina um pouco. Não para música, mas para um dia nas montanhas do estado do Rio de Janeiro, muitos anos atrás. Um flashback como montanhista — embora eu deva logo relativizar essa palavra.
O quê? Você também fazia isso? Não, nunca tive interesse. Imagine só: ficar horas pendurado numa montanha, puxando-se para cima com pinos de metal, a um ritmo de um metro por hora. Not my cup of tea.
Mesmo assim, anos atrás fiz algo parecido, mas não dá para chamar de esportivo. Eu estava de passagem por Nova Friburgo, já ouviu falar? Nova Friburgo é um lugar surpreendente nas montanhas do estado do Rio de Janeiro. Pelas influências suíças, quase parece Europa, com aquelas casas em estilo enxaimel e o ar fresco de montanha que você não encontra em nenhum outro lugar do estado. Como é mais frio, a região é conhecida pelas belas floriculturas e pela boa gastronomia, desde chocolates artesanais até um fondue de queijo bem quentinho. Há até uma escola de queijos, fundada com ajuda de especialistas suíços, onde produzem queijos como Reblochon e Gruyère com leite de vacas das montanhas. Dá para provar tudo ali mesmo — o que dá uma sensação inesperada dos Alpes, bem no meio do Brasil.
Você ainda pode ver como produzem queijos como Reblochon e Gruyère com o leite das vacas da região. O legal é que não é só uma escola, mas também um lugar onde você pode provar e comprar esses queijos frescos. Isso dá à cidade aquele autêntico clima alpino, no meio da natureza brasileira.
O que muita gente não espera é que essa cidade também é o lugar no Brasil para lingerie; há inúmeras fábricas e lojinhas. É realmente um destino agradável para quem quer trocar o calor do litoral por tranquilidade e verde em um cenário único.

Outra atração muito interessante é o artista Nêgo (nome verdadeiro: Geraldo Simplício). Ele é uma figura conhecida em Nova Friburgo, especialmente no bairro Campo do Coelho.
Sua obra de vida é o Jardim do Nêgo, um jardim cheio de esculturas enormes que ele mesmo esculpiu em rocha e argila. O curioso é que a natureza toma conta das obras; elas ficam cobertas por uma camada de musgo verde, fazendo com que pareçam parte da paisagem. São muito impressionantes e às vezes têm vários metros de altura. Como são feitas de argila e rocha, são vulneráveis à chuva, então ele está sempre fazendo reparos para mantê-las bonitas.
Pelo que sei, Nêgo ainda está vivo e ativo em seu jardim. Ele mora lá há décadas como uma espécie de eremita e cuida das esculturas sozinho. Ele é conhecido por receber pessoalmente os visitantes, e fez isso quando cheguei lá. Nêgo é um homem acolhedor que gosta de conversar sobre seu trabalho, embora faça isso principalmente em português.
Também me lembro da Cão Sentado, a “Rocha do Cão Sentado”. Essa impressionante formação rochosa de mais de 100 metros de altura parece, de um certo ângulo, exatamente um cão de guarda sentado observando as montanhas. Para chegar lá é preciso fazer uma subida, mas não é a subida à qual me referi no início — ainda assim, é uma caminhada puxada.
Seria incompleto se eu esquecesse o Encontro dos Rios. Esse fenômeno natural fica no distrito de Lumiar, um lugar querido por amantes da natureza. É o ponto onde os rios Macaé e Bonito se encontram, uma vista linda e um local popular entre visitantes, que podem nadar nas piscinas naturais de água cristalina ou apreciar a vista da ponte próxima. Muita gente vai ao Ecoparque Encontro dos Rios para ver bem esse ponto e relaxar à beira da água.
Lumiar em si é uma vila muito charmosa, com um clima alternativo, muita música ao vivo (principalmente forró e reggae) e bons restaurantes. É realmente uma das joias de Nova Friburgo para quem gosta de tranquilidade e natureza.
Fez tudo isso em um dia? Claro que não. Ficar alguns dias em alguma pousada charmosa faz parte. Mas bem, voltando àquela subida.
Em Nova Friburgo você pode subir de Teleférico para ver a cidade do alto — legal, mas o Pico da Caledônia é mais interessante. Alguém me deu essa dica e fiquei curioso. Depois de subir pela metade por uma daquelas estradinhas de terra (foto) tão típicas do Brasil, você chega à “Guarita”, um posto de vigilância da Petrobras, com um guarda uniformizado. A montanha é, na verdade, uma mistura de parque natural e centro de comunicação altamente protegido. O guarda está lá para garantir que apenas caminhantes subam e que as instalações que controlam o fornecimento de energia permaneçam seguras.
O topo do Pico da Caledônia é de grande importância estratégica para a segurança nacional e a infraestrutura. No topo há enormes antenas da Petrobras. Elas são usadas para enlaces de rádio essenciais para a comunicação com plataformas de petróleo na costa do Rio de Janeiro. A altura da montanha é perfeita para superar a curvatura da Terra. Como há equipamentos valiosos para o controle da produção de petróleo e gás, o local é protegido. Por isso é preciso se identificar e há horários fixos de visita.
Uma vez autorizado, o portão se abre e você se depara com uma verdadeira escadaria cujo início você vê, mas não o fim. É uma subida puxada por uma escada de 632 degraus até uma altitude de mais de 2.200 metros, mas a vista das montanhas — e em dias claros até da Baía de Guanabara — é simplesmente imbatível.
Custou-me muito fôlego para subir com duas câmeras, mas consegui.
A vida de uma pessoa é construída por lembranças. São justamente esses pontos altos que tornam todo o resto menos importante. O Brasil tem absurdamente muito a oferecer quando você sai dos caminhos mais batidos. E este é apenas um exemplo; há muitos outros, tantos que uma vida mal dá para ver tudo. Quando vejo políticos discutindo na TV, basta olhar de novo as fotos daquela época — antes com uma taça de vinho ao meu lado, hoje com a cup of tea.
A vida pode ser bonita, também no Brasil.










