O muro invisível
Por que a língua não é uma fronteira, mas uma ponte que construímos juntos.
Existe no Brasil um muro que ninguém vê, mas que mais cedo ou mais tarde você sente. Não porque seja duro, mas porque é macio — feito de sons, hábitos, ritmo, sotaque. Um muro que não foi criado para afastar ninguém, mas que obriga você a parar e escutar. É o muro onde o inglês simplesmente não funciona, mesmo entre pessoas que estudaram a língua durante anos, mesmo entre quem domina a gramática, mesmo entre quem entende quase tudo. Falar continua sendo difícil. Não por vergonha, nem por falta de vontade, mas porque o português brasileiro é uma língua que vive no corpo, nos músculos, na boca, na melodia.
Nunca ri disso. E ninguém riu de mim quando eu cometia erros — às vezes erros bem bobos. O português é uma língua linda, mas não é fácil. É preciso morar dentro dela, respirar dentro dela, tropeçar dentro dela. E mesmo assim, continua sendo um desafio. Na minha experiência profissional, percebi que até alguns brasileiros muito bem formados às vezes não escrevem um português totalmente correto em seus e-mails. Não por falta de conhecimento, mas porque o português que se fala nem sempre é o português que se escreve. Isso não é falha alguma — é prova de que a língua aqui vive, se move, muda, se adapta ao falante.
E aí vêm os sons. Os sons que mandam em tudo. Fiat vira Fiatshee, WWW vira dáblio-dáblio-dáblio, FM vira EffieMie, e meu sobrenome, Smeets, vira invariavelmente éSchmiets, como se o “S” inicial precisasse de uma corrida de impulso. Mas, curiosamente, ninguém tem dificuldade com Shopee ou Shein — palavras que para muitos europeus são quase trava-línguas.
O mais fascinante é que os brasileiros usam termos em inglês o tempo todo no dia a dia, não como língua, mas como enfeite, estilo, moda, marketing. Delivery, feedback, check-up, outdoor, fitness, post, like, selfie, snack — este último não como o alimento, mas como o estabelecimento onde se vendem lanches. E há ainda as criações locais, como uma clínica no meu bairro chamada Labchecap, mistura de laboratório com check-up, um nome que faz qualquer um franzir a testa na primeira leitura, mas que se encaixa perfeitamente no costume brasileiro de misturar palavras até virar algo novo.
Essa criatividade aparece em todo canto. Na Bahia, Oh Meu Rei é um clássico, assim como Bahea, um grito de orgulho ou aprovação. Cumprimentar alguém pode ser com Axé, despedir-se com um cheiro, expressão impossível de traduzir ao pé da letra. No Rio, você ouve mermão e perdeu, mané, em Minas é uai, no Sul você vira tchê, em São Paulo é meu, e em todo o país frases terminam em cara.
O exemplo mais marcante que já vi foi uma placa acima de uma loja: Rei dos Bancos. Rei dos bancos? Eu ainda não tinha conta bancária e por um instante pensei que talvez fosse ali. Claro que não. O homem era rei dos bancos de carro. Depois encontrei variações como O Rei das Capas, Rainha do Banco de Couro e Rei da Feijoada, um restaurante onde as pessoas esperavam na calçada por uma mesa nos fins de semana. Fui lá uma vez. Era realmente muito bom.
Para um estrangeiro, tudo isso pode parecer apenas curioso, mas para mim, que moro aqui, são janelas para um povo que não apenas usa a língua, mas brinca com ela, dobra, mistura, reinventa, que não tem medo de experimentar, que prefere ser criativo a ser perfeito. E, para ser justo, nós gringos não somos melhores. Tropeçamos em pão, não e pau, três palavras tão naturais para os brasileiros que eles não entendem como conseguimos confundi-las. Mas conseguimos. E continuamos conseguindo. Por anos. Às vezes para sempre.
Mas este não é um texto sobre diferenças. É um texto sobre aproximação. Sobre como brasileiros e não brasileiros podem se encontrar, mesmo quando a língua parece atrapalhar. Eu aprendi português na época das fitas cassete, de alguns livros, de jornais que comecei a ler desde o primeiro dia, de programas de televisão dos quais eu entendia metade, mas assistia mesmo assim. Hoje tudo é diferente. As ferramentas modernas de tradução tornam o aprendizado de uma língua muito mais acessível. A inteligência artificial acelera esse processo ainda mais, de um jeito prático e ao mesmo tempo enriquecedor. Seria um desperdício não usar esses recursos — e seria injusto se parte da população não tivesse acesso a eles.
Por isso continuo defendendo: inclusão digital não é luxo, é necessidade. Todos têm direito aos meios que aproximam as pessoas. Ninguém deve ser excluído da possibilidade de aprender, comunicar, conectar. Vivemos todos no mesmo planeta, precisamos uns dos outros, somos até obrigados a colaborar e a ter paciência. A língua não é um muro que nos separa, mas um convite para nos encontrarmos.
Esse é o muro invisível. Não é hostil, não é duro, não foi feito para afastar ninguém. É um muro que diz: se você quer viver aqui, precisa passar por mim. E quem passa descobre algo bonito: atrás desse muro não há barreira alguma, mas um mundo que só se abre para quem está disposto a ouvir, praticar, errar e tentar de novo. Um mundo onde a língua não é obstáculo, mas ponte. Um mundo onde a criatividade vale mais do que a perfeição. Um mundo onde brasileiros e não brasileiros não apenas se entendem, mas se enriquecem mutuamente.


