O tempo de se afastar
Por que as sociedades precisam refletir sobre liderança em idade avançada.
Nota ao leitor: Este texto não tem qualquer intenção partidária, eleitoral ou ideológica. Não defendo nem ataco governos, partidos ou líderes específicos. Meu objetivo é discutir um tema universal — o envelhecimento e a responsabilidade no exercício do poder — usando exemplos públicos amplamente divulgados. As citações mencionadas servem apenas para ilustrar um padrão humano e institucional, não para julgar indivíduos.
A vida humana pode ser dividida, de forma simples, em duas fases: um tempo de chegar e um tempo de partir. A primeira costuma durar mais do que a segunda. Mas é justamente a segunda fase que muitas vezes encontra resistência. Foram necessárias décadas para aprender, construir e conquistar — e tudo isso pode se perder em semanas, meses ou alguns poucos anos para um grupo pequeno, porém crescente.
Envelhecer é um processo universal, mas não vivido da mesma forma por todos. Para muitos, a aposentadoria representa libertação: finalmente tempo, finalmente descanso. Para outros, é um choque. O fim do trabalho não significa apenas o fim de uma rotina profissional, mas também o fim de um papel, de uma identidade, de um lugar no conjunto maior. A sensação de “não ser mais necessário” não é um detalhe — é uma experiência existencial que pode ferir profundamente.
Comigo não foi diferente. Apesar de uma vida ativa e de ter escolhido trabalhar mais tempo do que o necessário, esse momento chegou. Encontrei novas atividades, novas formas de dar sentido aos meus dias — escrever, caminhar, cozinhar, revitalizar meu site. Isso ajuda, me mantém atento. Mas o fato permanece: envelhecer exige adaptação, humildade, a capacidade de abrir espaço.
E é justamente aí que surge uma pergunta que me acompanha há tempos. Se cidadãos comuns já enfrentam dificuldades para deixar seus papéis para trás, como deve ser para pessoas que passaram décadas no topo do poder? Para líderes de países, para quem cada dia gira em torno de influência, visibilidade, decisões e responsabilidades em escala global?
Em vários países vemos líderes políticos em idade muito avançada ocupando funções que exigem extrema lucidez mental. Não se trata de julgar indivíduos, mas de reconhecer um padrão. Esse padrão aparece em discursos, entrevistas e aparições públicas, onde às vezes surgem frases que levantam dúvidas sobre clareza, contexto ou discernimento. Essas frases se espalham rapidamente pelas redes sociais — quase sempre sem nuance, sem contexto, sem as circunstâncias em que foram ditas. Uma única frase, arrancada do seu ambiente original, vira arma, meme, caricatura. E é por isso que me pergunto se as sociedades não deveriam se proteger dos riscos de líderes em idade muito avançada — e se esses líderes também não deveriam ser protegidos de si mesmos.
Para ilustrar como a liderança em idade avançada pode se tornar vulnerável em uma era de atenção permanente, seguem algumas declarações que geraram repercussão nacional e internacional. Não para ridicularizar ninguém, mas para tornar visível o padrão.
“Vocês são as pessoas honestas que querem que eu seja honesto.” (Lula: um ato falho que sugeriu, sem intenção, que ele ainda precisaria se tornar honesto.)
“Nikki Haley era responsável pela segurança do Capitólio... oferecemos 10.000 soldados, ela recusou.” (Donald Trump, confundindo sua rival Nikki Haley com a presidente democrata Nancy Pelosi.)
“Os chineses comem cachorro e não têm o problema dos brasileiros que gastam demais com seus animais de estimação.” (Lula: uma frase culturalmente inadequada e politicamente infeliz.)
“Onde está Jackie? Ela está aqui? Achei que ela estivesse aqui.” (Joe Biden, perguntando por uma congressista falecida durante um evento em sua homenagem.)
“Nunca encontraram uma tinta que pareça ouro. Se você pinta, não fica bom... estou pensando em colocar folhas de ouro nos cantos.” (Donald Trump, desviando para decoração do Salão Oval durante uma coletiva séria.)
“Quero expressar minha gratidão ao continente africano por tudo o que foi produzido durante 350 anos de escravidão.” (Lula, em escala em Cabo Verde após uma cúpula UE–CELAC.)
“Hoje recebemos a notícia de que, após uma partida de futebol, a violência contra mulheres aumenta. Isso é inacreditável. Se o homem for corintiano, aí tudo bem.” (Lula, tentando fazer humor sobre seu próprio time antes de retomar o tema sério.)
“Pessoas com problemas mentais têm um parafuso solto.” (Lula, usando linguagem informal que soou insensível para muitos.)
“A Venezuela tem mais narrativas do que fatos... O conceito de democracia é relativo para você e para mim.” (Lula, minimizando críticas ao regime de Maduro.)
A questão vai além das frases em si. Não se trata apenas de saber se um líder idoso ainda possui a flexibilidade mental que o cargo exige. Trata-se também das consequências de cada deslize, cada mal-entendido, cada formulação infeliz. Em uma era em que a informação circula em velocidade extrema e as redes sociais ampliam qualquer erro, uma única frase pode gerar repercussões internacionais. Liderar um país não é um papel simbólico. Não é um conselho tribal onde anciãos sábios oferecem orientação. É uma função em que decisões têm impacto imediato sobre milhões de pessoas, sobre economias, sobre segurança — às vezes sobre a própria paz mundial.
Por isso surge uma pergunta desconfortável, porém necessária:
As sociedades deveriam discutir uma idade máxima para funções de responsabilidade extrema?
Não para desqualificar idosos, mas para proteger sistemas dos riscos que inevitavelmente aumentam com o passar dos anos. Algumas instituições, como o STF brasileiro, já adotam esse limite: seus ministros se aposentam compulsoriamente aos 75 anos. Na política, essa obrigação não existe. Em conflitos internacionais vemos como decisões de líderes — de qualquer idade — têm consequências enormes. Quando essas decisões são tomadas por líderes muito idosos, a pergunta sobre salvaguardas institucionais se torna ainda mais urgente.
O poder é viciante. Ele dá estrutura, significado, propósito. Para alguém que passou a vida no centro das atenções, a ideia de renunciar pode ser insuportável. Mas responsabilidade exige mais do que experiência. Exige flexibilidade mental, rapidez de raciocínio, memória, clareza — qualidades que, sem exceção, se tornam mais frágeis com o tempo.
Chegou a hora de abrir esse debate — não por medo, não por partidarismo, mas por bom senso e cuidado com o futuro.


